Índice de chips cai 6,7% em um dia e gasto da Meta com IA reacende dúvida sobre a conta
Caixa livre da Meta ficou negativo pela primeira vez em mais de dez anos, a Nasdaq recuou 2,6% e o petróleo subiu à máxima em cinco meses no mesmo dia
Por Vinicius Lemos,

O índice que reúne as principais empresas de chips negociadas nos Estados Unidos, o índice de semicondutores da Filadélfia, caiu 6,7% na quinta-feira, a maior queda em um único dia desde junho, segundo a Reuters. Intel, AMD, Sandisk e Marvell perderam mais de 8% cada uma. A Nasdaq, bolsa em que a tecnologia tem muito peso, recuou 2,6% no dia.
A queda veio depois de uma série de balanços de grandes empresas ligadas à inteligência artificial, e o da Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, chamou mais atenção. De acordo com a CNBC, a receita da empresa subiu 26% na comparação com o ano anterior e veio acima do que os analistas esperavam. O problema apareceu em outra linha do balanço: o caixa livre ficou negativo em US$ 2,12 bilhões, o primeiro resultado desse tipo em mais de dez anos. A ação da Meta caiu perto de 7%.
O motivo, segundo a CNBC, é o tamanho do investimento em inteligência artificial. A Meta prevê gastar entre US$ 135 bilhões e US$ 145 bilhões no ano, principalmente em centros de dados e equipamentos. Boa parte desse dinheiro termina no caixa de quem fabrica chips, e é por isso que a dúvida sobre o ritmo dos gastos de uma empresa se espalhou rapidamente pelo setor inteiro.
Para entender o peso desse número, vale explicar o conceito. Caixa livre é o que sobra depois que a empresa paga a operação do dia a dia e os investimentos. Quando ele fica negativo, a companhia gastou mais do que gerou e precisa buscar recursos fora, seja com dívida, seja com venda de participação. A CNBC informa que a Meta vai criar ações sem direito a voto para financiar o crescimento. No mesmo período, o preço do seguro que investidores compram para se proteger de um eventual calote da empresa atingiu o nível mais alto já registrado, sinal de que o mercado passou a cobrar mais para emprestar a ela.
Isso importa porque a alta recente das bolsas americanas se apoiou em boa parte nas empresas de chips. Mesmo depois do tombo, o índice do setor ainda acumula alta de 51,5% no ano, segundo a Reuters. Ao mesmo tempo, já está mais de 26% abaixo do recorde atingido em junho. Os dois números juntos mostram o tamanho da oscilação: o ganho do ano é grande, mas a distância até o pico também é.
Outro fator pesou no mesmo dia. Segundo a Reuters, ataques dos houthis, grupo apoiado pelo Irã, contra alvos na Arábia Saudita levaram o petróleo à máxima em cinco meses. Petróleo mais caro tende a segurar a inflação, e o mercado já conta com mais uma alta de juro nos Estados Unidos antes do fim do ano. Juro mais alto encarece o dinheiro para quem precisa captar recursos para continuar investindo, o que é justamente a situação de empresas que gastam pesado com inteligência artificial.
Para quem mora no Brasil, o efeito não fica restrito a quem compra ações de chip. Os principais índices americanos têm grande peso de tecnologia, e muitos fundos e produtos vendidos aqui acompanham essas bolsas. Quem tem dinheiro em um fundo que segue a Nasdaq ou um índice amplo dos Estados Unidos sente esse movimento mesmo sem ter escolhido nenhuma empresa do setor. Uma alta forte no ano não diz quanto do resultado depende de um único tema, e é essa concentração que costuma pesar quando o humor do mercado muda.
Um exercício simples ajuda a enxergar a exposição: listar o que se tem investido e anotar quanto depende de tecnologia americana, diretamente ou por meio de fundos. A ideia não é vender por impulso depois de um dia ruim, e sim saber quanto do patrimônio balança junto quando esse setor oscila.
Nos próximos dias, vale acompanhar três pontos. O primeiro é se outras grandes compradoras de chips mantêm ou revisam os planos de gasto com inteligência artificial. O segundo é a reação do mercado à captação da Meta e ao custo de proteção contra calote da empresa. O terceiro é o petróleo e os sinais do banco central americano sobre a próxima alta de juro, que afetam o custo de financiar esse ciclo de investimentos.